terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O casamento "Hoje em dia"


Hoje pela manhã acompanhei uma senhora até o hospital. Enquanto esperava o término do exame fiquei entre as páginas do livro que levei, as reclamações dos demais pacientes pelo descaso, e a televisão. Esta estava sintonizada na Rede Record  que transmitia um desses programas de variedades, chamado "Hoje em dia", que vão desde fofoca sobre a vida dos famosos até receitas culinárias. Mas, o que me deixou espantado não foi a falta de qualidade do programa, e sim o tema abordado em um dos blocos. De repente, depois de me distrair alguns minutos, voltei meu olhar para a TV e me deparei com o seguinte assunto: "Dicas para quem quer se separar".

Esse tipo de proposta, talvez, nem espante muitas pessoas porque vivemos em uma sociedade que diluiu com seus valores o compromisso de uma vida compartilhada. É muito comum ouvir por aí alguém dizer: "Não estávamos satisfeitos com o relacionamento e nos separamos." O que é um sintoma de que, na verdade, muitos entram em empreitadas amorosas alavancados por seus egos hedônicos, no intuito apenas de se satisfazerem, e não de construir algo bom em conjunto. Há uma música do Frejat que em seu refrão descreve bem o que alguns pensam sobre o amor: "Quero um amor que seja bom pra mim(...)"

Contudo, a proposta bíblica para o casamento não é de um amor que atenda uma das partes através do consumo da alteridade, mas de um relacionamento em que ambos se doem e se tornem investidores e construtores um do outro e da própria relação. Como afirmou Jesus:

Mas desde o principio da criação Deus os fez homem e mulher.
Por isso deixará o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá a sua mulher e os dois serão uma só carne. Assim, já não são mais dois, porém uma só carne. (Marcos 10. 6-8)

Ou seja, a união de um casal não é baseada num sentimento de satisfação. Em outras palavras, o amor não é apenas um sentimento, mas um compromisso. Uma escolha através da qual o outro se torna indispensável, como cantou Vander Lee na sua estrofe que se configura como resposta ao refrão de Frejat:

Cada dia que passo sem sua presença
sou um presidiário cumprindo sentença.
Sou um velho diário perdido na areia
esperando que você me leia.
Sou pista vazia esperando aviões.

No entanto, seria ingenuidade não considerar que o casamento é uma tarefa difícil. Há ainda hoje certa idealização feita sobre essa instituição. Muitos pensam que um casamento feliz é um casamento sem problemas. No entanto, o livro de Cantares que retrata através de seus poemas o amor de um casal apaixonado diz: As muitas águas não poderão apagar esse amor,  nem os rios afogá-lo (Ct 8,7). Frase que deixa claro que até o casal mais apaixonado precisa resistir a turbulência das muitas águas. Dessa maneira, é preciso também uma dose de esforço e paciência dos parceiros, porque todos os relacionamentos passam por dias difíceis.

Todavia, o casamento é uma experiência incrível e profunda onde encontramos a face amorosa de Deus e nos tronamos mais humanos, porque a vida a dois é muito mais vida. A história de Jacó e Raquel relatada no livro de Gênesis em que o protagonista trabalha durante anos para ter o direito de se casar com sua amada ilustra bem isso. Principalmente no que diz o texto de Gn 35.20 sobre a morte de Raquel: "Sobre a sepultura de Raquel Jacó ergueu uma coluna que existe até hoje". Jacó  já havia feito isso certa vez. Erigiu uma coluna de pedra quando teve um encontro com Deus. Mas o que isso quer dizer? Acredito que o texto deixa transparecer que toda experiência de amor verdadeiro é também uma experiência com Deus.

Portanto, que contra esse paradigma de "Hoje em dia" que dilui o compromisso do casamento e propõe a separação como melhor solução, tenhamos em mente a orientação bíblica de que o outro não é descartável e tampouco consumível, mas companheiro indispensável. Que escapemos das idealizações de um relacionamento sem problemas e caminhemos com perseverança cantando o verso de Jorge Vercilo: Se fez indestrutível nosso amor de tanto se erguer ferido. Para que, à semelhança de Jacó e Raquel, nossas histórias sejam verdadeiros memoriais da presença de Deus nesse mundo.
Por fim, fico com o músico Atilano Muradas: Casar é muito bom! Quem vai querer?

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